Um debate, dois mundos
O primeiro confronto direto entre os postulantes ao Senado por São Paulo trouxe à mesa menos propostas e mais atrito. Durante o debate promovido pela Band na noite de quarta-feira (9.set.2026), Ricardo Salles (Novo) escolheu como alvo preferencial a origem política de suas duas principais adversárias: Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB).
O argumento do ex-ministro do Meio Ambiente foi direto: ambas teriam construído carreiras eleitorais longe de território paulista — Marina no Acre, Tebet no Mato Grosso do Sul — e, por isso, conheceriam pouco as demandas concretas do eleitorado de São Paulo.
Reação imediata
A provocação não passou em branco. As duas candidatas rebateram a crítica e deslocaram o eixo da discussão para o histórico de gestão e para a capacidade de articulação nacional que, segundo elas, favorece o Estado.
- Marina Silva lembrou sua atuação em pautas ambientais de alcance nacional e afirmou que a agenda climática é, hoje, indissociável da economia paulista.
- Simone Tebet apostou no argumento da experiência administrativa e disse que trajetória não se mede por CEP, mas por resultados.
Salles, por sua vez, insistiu que a disputa é estadual e que o eleitor cobra proximidade, não currículo construído em outras regiões.
Escala 6x1 acende o plenário
Se a origem das candidaturas abriu o confronto, a proposta de extinção da escala de trabalho 6x1 aprofundou o racha. O tema dominou boa parte do bloco dedicado a economia e relações de trabalho.
- Um grupo defendeu o fim imediato do modelo, alegando impacto direto na saúde do trabalhador e na produtividade.
- Outro bloco pregou cautela, alertando para o risco de inflação de custos e de desemprego em setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços.
O impasse revelou uma divisão que deve atravessar toda a campanha: de um lado, quem aposta na regulação como indutora de qualidade de vida; de outro, quem teme o efeito colateral sobre a geração de vagas.
Supremo, segurança e o caso Banco Master
O papel do Supremo Tribunal Federal (STF) apareceu como terceiro ponto de fricção. Houve quem defendesse a necessidade de conter o que chamou de ativismo judicial e quem sustentasse que a Corte é guardiã do pacto democrático.
Na segurança pública, as divergências seguiram o mesmo padrão: propostas de endurecimento penal e ampliação do armamento confrontaram-se com teses de investimento em inteligência policial e políticas de prevenção.
Já o caso envolvendo o Banco Master entrou na reta final e virou teste de credibilidade. Os candidatos foram instados a explicar posições sobre fiscalização do sistema financeiro, responsabilização de gestores e o papel do Banco Central na supervisão de instituições em crise.
O que fica do encontro
Ainda que sem confronto direto entre todos os nomes a cada bloco, o formato deixou claro qual será o tom da disputa em São Paulo:
- Identidade e território como arma retórica;
- Trabalho e renda como campo de batalha econômico;
- Instituições e segurança como termômetro do campo político;
- Regulação financeira como prova de seriedade técnica.
A eleição ao Senado pelo Estado mais populoso do país tende a funcionar como vitrine nacional. Se o debate da Band serviu de amostra, a campanha paulista será menos sobre propostas detalhadas e mais sobre a capacidade de cada candidato de traduzir para o eleitor paulista — nascido ou não em São Paulo — o que está em jogo em Brasília.